Meu Amigo Pato
De como um pato escapou da morte pela intervenção de um bêbado com bom coração
Era uma dessas tardes agradáveis demais, com temperatura amena, sol radiante e gostoso que estimula a prática esportiva e a convivência alegre e saudável com os amigos. Pois neste dia, numa pequena cidade do sul do Brasil, um pequeno grupo de amigos resolveu dedicar aquele belo dia de descanso e farra ao futebol e à beberagem.
Sim!, pois é muito comum que os grupos de amigos reunam-se para beber e praticar esporte, por mais que os velhos rabugentos e obcecados pela boa saúde esbravejem e vejam nisto uma incoerência monstruosa. Ora! Mas que graça há em praticar o velho esporte bretão se não houver umas doses a mais na cuca? Ao meu ver, nenhuma graça, afinal o álcool conforta o espírito, alegra as conversas e transforma as partidas amadoras de futebol na mais estupenda final de copa do mundo.
Posto que estava tudo planejado acerca do jogo e do que iriam beber, passaram a conferenciar sobre o que preparariam para o jantar, pois era claro que após tanto esporte e tanta bebida seus estômagos estariam praticamente colados às costas e seria necessária uma refeição vigorosa e nutritiva para coroar de êxito este belo dia de diversão e camaradagem. Decidiram-se finalmente de que o banquete seria composto de uma bela carne de pato acompanhada de arroz e saladas. Ah! Que maravilha, mal podiam esperar o final do jogo para saborear esta pantagruélica e nababesca confraternização entre amigos bêbados.
Mas logo fez-se claro um pequeno problema: a carne do pato é muito dura, então era mister a intervenção de algum dos membros da equipe com o objetivo de fazer o pato beber algumas doses de aguardente para que sua carne fosse amolecendo aos poucos e que na noite, na hora de ser assado e servido, estivesse macia e suculenta como o mais delicioso manjar divino. Puseram-se novamente a conferenciar e democraticamente incumbiram um dos rapazes desta nobre e importante função: embebedar o pato, que alheio ao que se planejava contra si, teria sua carne amaciada e em condições de ser servida para jogadores bêbados, cansados e famintos.
Como todos os detalhes estavam resolvidos a turma dirigiu-se ao campo, entre cantorias, beberagens, algazarras e firulas, enquanto o rapazote diligentemente punha-se a executar sua tarefa.
Como se estivesse um pouco entediado resolveu acompanhar o pato na bebedeira. Abria o bico do pato, jogava um pouco de cachaça lá pra dentro e bebia também um grande gole para acompanhar o bicho. E este ato, consciencioso que era o rapaz acerca de sua nobre missão, repetiu-se dezenas de vezes, enquanto a partida de futebol desenrolava-se não muito longe dali e a imagem do pato sendo servido não saía da mente dos bravos jogadores.
As horas se passaram e como os jogadores a esta altura já estavam famintos e desejando repousar, decidiram então encerrar a partida e rumaram com os passos firmes até o pequeno local no qual seria servido o delicioso pato. Ao chegarem à casa, logo estranharam, pois o rapaz estava sumido e o pato, que neste momento já deveria estar saindo do forno, estava na realidade totalmente intoxicado pelo álcool que bebera, vomitando e defecando a cada dois passos, completamente zonzo e sem moral.
Uma cena deprimente, o pato completamente arrasado pelo álcool.
Nisto, alguns mais impacientes já começavam a soltar grandes e graves impropérios em relação ao rapazote que não havia cumprido sua missão e ainda por cima desaparecera. Estavam todos famintos e houve um princípio de motim entre os rapazes, exigindo que o pato fosse assado imediatamente. E isto causou uma espécie de frenesi entre o grupo e um dos rapazes dirigiu-se ao pato com o intuito de pegá-lo o mais rapidamente possível para logo vê-lo no fogão.
Então, naquele momento, desfez-se o mistério do desaparecimento do rapaz encarregado de inebriar o pobre pato: ao perceber as intenções funestas de seus companheiros em relação à pequena ave, saiu do banheiro onde recuperava-se do porre e falava com o ar mais convicto e sério do mundo:
- Ninguém bate no meu amigo!
E pôs-se a abraçar, acariciar, beijar o pobre patinho, diante do olhar estupefato e incrédulo de todos os seus companheiros. Os companheiros em vão tentaram argumentar, o jovem repetia categoricamente que ninguém ousaria tocar no seu amigo e com os olhos marejados sensibilizou a todos os bêbados jogadores, que contentaram-se em comer arroz e salada e até passaram a achar muito gracioso o pequeno patinho.
E foi assim que este pequeno e afortunado pato escapou de uma inglória e degradante morte no forno, graças a amizade de um bêbado com bom coração. E por anos e anos os dois ainda tomaram muitos porres juntos.