Para D.
O grande mentiroso
O grande mentiroso assim é conhecido pela magistralidade e teatralidade de suas mentiras grandiosas. O grande mentiroso não tem objetivos a atingir com suas mentiras. Ele é naturalmente um mentiroso pela simples compulsão de sê-lo e talvez para embelezar ou enfear a realidade a sua volta.
O grande mentiroso mente prazerosamente em todas as situações, 24 horas por dia, e chega ao ponto de não saber mais distinguir o que é mentira e o que é verdade. Na realidade, o grande mentiroso desconhece os conceitos de mentira e verdade. Para ele, tudo sempre é uma boa e deliciosa história, cheia de detalhes sórdidos que dão muito mais sabor à vida.
O grande mentiroso mente descaradamente para qualquer um, seja um policial, sua mãe ou o Papa. Ele não tem preconceitos em relação àqueles que ouvem incrédulos suas mirabolantes histórias.
O grande mentiroso não se importa se lhe darão crédito ou não, ele se compraz com o simples fato de proferir mentiras em torrentes, tanto faz se rirão às suas costas, se rirão na sua cara ou se lhe acreditarão totalmente. Para ele nada disso importa, até porque na maioria das vezes suas histórias são absurdamente inverossímeis.
O grande mentiroso caracteriza-se pela riqueza e profusão de detalhes em suas invencionices e transmite credibilidade pois sempre calca suas histórias em pequenos fatos verdadeiros do cotidiano. Ele pega uma coisinha aqui e aumenta. Pega outro fato ali e o deturpa. Lembra-se de algum relato e o transfigura completamente. É um grande estratagema da mentira, e do mentiroso, agarrar-se na verdade para parecer real.
Para o grande mentiroso um lambari vira uma baleia e um grão de areia pode parecer um meteorito. O grande mentiroso mente e não fica corado e mesmo quando desmentido por aquele amigo mais cara de pau, ele supera-se ao inventar outra mentira ainda mais crocante para encobrir aquela historieta que não convenceu os ouvintes.
O grande mentiroso mente pois considera-se um fracassado, embora não confesse a ninguém, e, muito pelo contrário, esforça-se sempre em parecer um homem virtuoso. Considera-se um verme, mas mostra-se ao mundo garboso e viril. Necessita de todas as formas, independentemente de quem venha a atingir com isso, moldar a realidade de acordo com suas vontades. Ele mente para disfarçar, pois julga-se um ente abjeto, e realmente é, pois quem tem o coração bom e puro não precisa de mentiras para sobreviver neste mundo cão.
O grande mentiroso é o ser mais desprezível que pode haver, pois não ama a ninguém, somente a si mesmo, e ama a si mesmo somente por suas mentiras, que são tão grandes que chegam a enganar a ele próprio. Ama também as suas maravilhosas e incoerentes criações mentais. Conta uma história num dia e já no outro modifica alguns detalhes que não pareceram adequados ao seu ego monstruoso. Sem nunca se importar com algo chamado coerência ele segue lépido e faceiro. E tudo isso sem o menor remorso, sem a menor culpa ou vergonha na cara.
O grande mentiroso não é tímido e entrosa-se muito bem em qualquer grupo, aliás, para cada grupelho diferente ele saca seu vasto repertório de mentiras ou abusa da improvisação, característica fundamental para qualquer grande mentiroso.
O grande mentiroso não vive, ele fantasia. O grande mentiroso não é um ser humano, é uma mentira.




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