A casa vazia
Abri a porta dos fundos e me deparei com uma cena de certa forma desoladora: um pequeno riozinho, proveniente do vazamento da máquina de lavar que outrora esteve ali. Agora, apenas o vazio, a marca quadradinha no pedaço de chão que ela ocultara nos últimos anos. As minhas pernas tremeram. Então, girei duas vezes a chave na fechadura e entrei para ver o resto. Aliás, a falta de todo o resto. A casa vazia. O eco como meu último e mais sinistro companheiro. Algumas garrafas de cerveja, cinzeiros cheios e a cortina da cozinha amarrada. As luzes da rua entravam e varavam completamente a casa, que agora estava vazia. Lembrei de minha filha e fiquei contente em imaginar a festa que ela deve ter feito durante a retirada dos móveis. Criança é assim. Tudo é festa, até a desgraça é festiva. Afinal, uma criança de 6 anos não compreende direito o por que das relações dos adultos serem tão complicadas. No mundo delas tudo é mais fácil. Brigam entre si e meia hora depois dançam, cantam, se abraçam. Ainda com essa lembrança na mente percorri todos os cômodos, certificando-me se realmente aquilo estava acontecendo. A casa vazia. Não parecia ser real. Mas a cada passo, a cada tropeço sobre fotos bonitas e antigas, a cada esbarrão em meus livros velhos e novos agora todos amontoados pelo chão da sala, eu me convencia da dimensão do meu erro. Então chorei. O ar me faltou. A casa vazia. Na mesma proporção do vazio da casa o ar me faltava, como se junto com os móveis, fotografias, violão, livros, eletrodomésticos, ele tivesse sido roubado, criando um vácuo de remorso, desespero, perda, angústia, depressão... Era a casa vazia. Vazia, vazia... E o meu coração ficou vazio também.





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