Enquanto o Mundo Explode


Sexta-feira , 29 de Julho de 2005



Verme


Entramos naquela porra de bar onde um velhote aleijado e bêbado gritava a plenos pulmões: "quero ver é gozar dentro de um dedal, seus filhas da puta!!!"

Nossa, pensei comigo, hoje a noite promete. Então nos dirigimos até o fundo da espelunca e adentramos num pequeno escritório, que não pecava pela desorganização, mas somente pela sujeira acumulada de anos. Água e sabão, definitivamente, não combinavam com aquele lugar.

"Esperem um momento", uma voz envelhecida nos dizia enquanto eu chacoalhava as pedras de gelo dentro do engordurado copo de uísque que me serviram. Era como se fosse uma cascavel agitando seu chocalho, indicando que algo de perigoso pairava no ar, algo maléfico nos espreitava.

Os minutos se passavam e nada do homem o qual procurávamos chegar. A impaciência já estampava-se no meu rosto e no do meu colega, mas foi nesse exato momento em que eu me levantava da cadeira, que aquele velho homem, encurvado, cabelos grisalhos, vários dentes faltando, anéis dourados, camisa amarrotada e ensebada entrou e sentou-se diante de nós. "Obrigado por esperarem", disse ele entre duas baforadas de um cigarro fedorento e barato.

Olhei-o bem nos olhos e informei qual era o motivo de nossa visita, ele instantaneamente interrompeu-me com um gesto sutil e disse que já sabia e lamentava profundamente. Perguntou-nos o que poderia fazer por nós. Eu respondi que no momento nada, apenas providenciar nos próximos dias a morte de duas pessoas que haviam nos traído. Ele me olhou com o ar grave e afirmou que assassinato não era nenhuma brincadeira e o que eu lhe pedia era muito sério e poderia ter sérias conseqüências. Eu esmurrei a mesa e disse que eu sabia exatamente o que era um assassinato e não estava ali para brincadeiras, afinal ele nos devia, tinha que pagar.

Ele concordou e pediu que nos retirássemos pois estava muito cansado e precisava pensar em muitas coisas.

Saímos pelo pequeno corredor que ligava a frente do bar àquele fétido escritório e aquele velho bêbado ainda continuava lá vociferando mil besteiras enquanto um casal de homossexuais, escondido atrás de uma pilastra o observava com certo receio.

Ao ganharmos a rua meu colega que permanecera calado até então mencionou algo sobre um pressentimento, sobre não ter gostado do jeito que o velho bandido nos olhava enquanto manuseava uma bala de 38.

Ao atravessarmos a primeira rua um carro estacou violentamente diante de nós e lá dentro dele pude ver o velho sorrindo enquanto seus capangas nos metralhavam impiedosamente. Meu colega, que era um idiota completo, ainda gritou, talvez lembrando-se da conversa de minutos atrás "assassinato não é brincadeira!". Ao que prontamente, entre gargalhadas e baforadas, o velho rebateu "matar vermes é a melhor brincadeira".

Instintivamente, e como bom verme que eu era, rastejei ferido até um bueiro, e enfiei-me lá dentro, enquanto meu colega estrebuchava na sarjeta e o velho zarpava com seus capangas.

E agora estou vivo para contar essa história pra vocês.

Escrito por Edu Beckandroll às 02h25
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Quinta-feira , 28 de Julho de 2005


Desarmamento

Apesar de atualmente eu ser "o marginal do orkut":

Eu não uso armas.

Meus amigos não usam armas.

Meus familiares não usam armas.

Não conheço ninguém que use armas.

Voto a favor do desarmamento.

Escrito por Edu Beckandroll às 14h06
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Quarta-feira , 27 de Julho de 2005


A feiúra de viver

Eu estava batendo com um tacape na cabeça de um vizinho meu quando ela chegou. Nossa, ela era linda e me fez esquecer por completo o corpo inanimado de meu vizinho estirado aos meus pés.

Cumprimentou-me  apenas com um leve piscar de olhos e convidou-me para beber algo gelado. Realmente, o calor naquele dia estava castigando os viventes. Enquanto enlaçava aquela primorosa boneca de carne pela cintura com o intuito de nos locomovermos até a padaria mais próxima, eu pensava que a foda naquela noite seria boa.

No meio do caminho até a padaria na qual tomaríamos a cerveja gelada lembrei-me do corpo inerte de meu vizinho. Voltei imediatamente enquanto orientava minha nova namorada sobre como chegar até a padaria mais próxima.

Olhei aquele corpo estendido no chão e senti uma espécie de compaixão, no entanto repulsiva. Enrolei-o em um tapete e tratei de colocá-lo na fornalha da empresa de peças para fogões na qual nos encontrávamos no pátio.

Fiquei observando o corpo arder dentro daquela garganta diabólica.

Voltei para a rua e segui incontinente até a padaria, minha nova namorada devia estar aflita. Ó que engano! Avistei-a ainda do meio da rua nos maiores sorrisos e abraços com outro homem no balcão da padaria.

Decididamente, a vida não era nada bela.

Escrito por Edu Beckandroll às 01h19
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Sexta-feira , 22 de Julho de 2005



Hotel


De todas as situações bizarras que eu havia vivido até então em minha curta, no entanto promíscua e banal passagem pela Terra, esta que irei relatar, sem dúvida é a pior.

Em 1953 eu contava com a idade de 15 anos e costumava passear demoradamente, todas às tardes, por aquela minha minúscula e querida cidade. Eu parava defronte a cada vitrine, estacava e cumprimentava cada um dos passantes, e, se avistasse algum forasteiro, logo me aproximava para obter algumas informações a seu respeito.

Pois tanto foi, que, numa gélida e absolutamente encantadora tarde de inverno, tarde de mais um desses meus passeios diários, que eram tantos e tão demorados naquela época, eu vi uma pessoa maravilhosa, que há tempos eu sonhara, sim, eu tinha certeza, eu já havia sonhado com aquele rosto!

Aproximei-me então o mais rápido, porém suavemente, que eu pude e logo estávamos nós dois sentados à grosseira mesa de um bar, gargalhando e detalhando pormenorizadamente nossas vidas até então um para o outro.

A conversa seguia tão animada e agradável que a noite já caía quando nem sequer havíamos a percebido chegando.

E da mesma forma que não percebêramos a sorrateira e enebriante chegada da noite estrelada e fria, nós não havíamos percebido, como se fosse apenas um espectro invisível a nos rondar, aquela aura que nos envolvia, intoxicava e fazia respirar. Algo arrebatador, destruidor, aniquilador estava por acontecer. Certamente algo que nós ainda não tínhamos provado.

Minha nova companheira solicitou que eu a acompanhasse até ao pequeno hotel o qual se hospedara, então nos despedimos no lobby do hotel e fiquei assistindo ela deslizar escada acima até o estágio superior do hotel onde ficava seu quarto. Virei-me rapidamente, assim que ela desapareceu no topo da escada e rumei para minha casa.

Ao entrar em meu quarto deitei-me e fiquei imaginando como seria  possuir aquele corpo de aspecto virginal e branco, de tranças longas e nuca delicada. Fui tomado por uma sensação febril a qual meu corpo reagia através de pequenos espasmos e suores, muitos suores.

Completamente perturbado por aquele mulher estranhíssima e encantadora eu não podia dormir. Meus olhos não cerravam, minha consciência não serenava, como se houvesse um motor funcionando dentro de meu peito. Então levantei-me, calcei as botas, coloquei um casaco e singrei através da madrugada pela cidade vazia e fantasmagórica até chegar ao hotel.

Antes eu houvesse permanecido deitado tentando em vão adormecer.

Os fatos que lhes irei relatar a partir de agora serão reproduzidos o mais fielmente possível que minha torpe memória permitir. Se bem, posso assegurar-lhes, os acontecimentos daquela noite foram tão impactantes em minha vida que eu jamais poderia esquecer, por mais insignificante que fosse, qualquer detalhe, qualquer segundo de tudo que ocorreu de forma dolorosa e inverossímil.

Chegando defronte ao pequeno hotel, que era simples,  porém limpo e digno, fiquei a observar o movimento ao redor do pequeno prédio. Nada de anormal. As ruas estavam calmas e quietas como um cemitério.  Notei que apenas uma janela no segundo andar permanecia iluminada, indicando uma possível movimentação. Fiquei alerta, em estado de vigília absoluta, fixando meu olhar naquela janela que parecia me hipnotizar.

De repente sua silhueta surgiu por detrás da cortina iluminada por uma luz fraca e amarela. Deus! Quanta excitação senti naquele momento, algo incontrolável, então decidi que teria que entrar naquele hotel de qualquer maneira e chegar até o quarto que guardava o maior e mais delicioso tesouro que eu tivera a felicidade de encontrar em toda a minha vida.

Dirigi-me até a entrada principal do hotel e percebi que lá dentro apenas um sonolento atendente dormia encostado no balcão da recepção, tentando fingir que estava acordado e zelando diligentemente pelo estabelecimento.

Seria mais fácil do que eu havia imaginado penetrar no hotel sem ser visto e chegar até o quarto daquela mulher que me atraía como as estrelas atraem os demais corpos celestes. No entanto, havia um pequeno problema. A porta deveria estar trancada.

Com efeito, ao chegar até a porta constatei que ela estava chaveada por dentro, com o molho de chaves dependurado na fechadura feito um corpo na forca .

Então ocorreu-me algo brilhante.

Corri até minha casa e telefonei para o hotel. Dez vezes o telefone chamou até que a voz sonolenta atendeu perguntado o que desejava. Informei que algo terrível estava acontecendo no último andar do hotel, no quarto 602, um homem embriagado tentava assassinar sua mulher enquanto arremessava todos os objetos do quarto contra as paredes, tornando dessa forma qualquer tentativa de conciliação com o sono impossível. O rapaz assegurou que subiria imediatamente e resolveria o problema, e talvez afetado ainda pelo sono, desculpou-se mil vezes sem ao menos verificar em qual quarto do hotel eu estava hospedado.

Larguei o telefone de qualquer jeito e corri o mais que pude até o hotel e chagando lá quebrei o pequeno vidro da porta, abri-a e tratei de subir rapidamente as escadas até o terceiro andar, no qual se encontrava a mulher mais linda do mundo, oferecendo-se na janela para mim e somente para mim.

Quedei-me diante da porta do quarto da mulher e senti que estava em um sonho. Sim! Agora eu lembrava perfeitamente, o sonho que eu já havia tido com aquela mulher, com aquela noite, aquele hotel, aquele quarto... Aquela junção de fatores que eu vislumbrara tempos atrás em um sonho, como um sinal premonitório, determinaria o rumo de minha vida dali por diante.

Quase derrubei a porta do quarto, batendo com tanta força, completamente tomado por uma louca excitação, eu sentia meus olhos latejando, minhas têmporas vertendo suor.

A porta não abria, eu batia cada vez mais forte, esmurrava a porta, chutava-a, esbravejava pavorosamente até que derrubei aquela maldita porta e pude entrar correndo no quarto para finalmente possuir aquela mulher virginal e lasciva.

Deus! A cena que encontrei dentro do quarto. Que horror! Sangue nas paredes... Sangue no chão... Uma poça de sangue... sob os pés dela, diante da janela, empalada por uma grande e pontiaguda barra de ferro que entrava pelo seu ânus e saia pela boca junto com tripas, merda, sangue e vísceras.

Então era isso que eu via da rua. Um cadáver empalado defronte a janela sobre uma horrível poça de sangue.

Meu grito varou a madrugada enquanto três ou quatro homens me imobilizavam em meio a lamúrias incrédulas.

Escrito por Edu Beckandroll às 22h54
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Segunda-feira , 18 de Julho de 2005


Todos os caminhos levam à morte

Ah, eu andava perdido naquela época, entre sabonetinhos e cuecas cheirosas. Sem saber se batia com a cara no muro ou mergulhava numa piscina de ácido. Algumas dúvidas eclodiam na minha cabeça e eu me sentia completamente desamparado. Mas foi por essa época mesmo que eu mantive contato pela primeira vez com aquele pessoal do bar do Bolota. Puxa, eram tão incríveis todos eles com suas histórias mirabolantes, suas bravatas, seus arrotos, suas caras bêbadas e entediadas da vida. Eu me sentia vivo novamente e ansiava durante o dia inteirinho poder chegar no final da tarde naquela birosca engordurada para me sentar num dos bancos de madeira velha, esverdeada pelo musgo e quase podre, e ficar bebendo até depois da meia-noite sem nenhuma preocupação na cabeça além de contar as moedas para um último trago. Era essa a vida que eu queria, era essa a vida que eu teria dali pra frente. Eu sentia cada poro do meu corpo exalando álcool e eu me sentia bem por causa disso. Eu sentia que meu corpo muitas vezes se encontrava num azedume pavoroso de fazer criancinhas vomitar, mas eu não estava nem um pouco preocupado com isso. Eu só queria contar mais uma vez minhas moedinhas e dar a contribuição diária ao Bolota. Era como um dízimo. Algo sagrado pra mim. Eu já não poderia mais viver um dia sequer sem chegar naquele boteco e despejar algumas moedinhas na mão calejada do gordo homem que aparentemente criara raízes detrás daquele balcão imundo. As cores da avenida já ficavam mais cintilantes depois de algumas horas bebendo naquele sagrado e profano lugar. Eu estava vivo e era isso que importava. Os passantes me olhavam com o olhar duro da reprovação, algumas vezes lá no fundinho dos olhos deles eu conseguia perceber uma certa compaixão, comiseração, dó, pena, nojo, repulsa, acusação, revolta, indignação. Eram todos eles boas almas, rumando para suas casinhas, suas chaminés, seus televisores, meias brancas engomadas e sabonetinhos no guarda-roupa. Eu vivia entre as putas. Entre os escarros repugnantes boiando nas sarjetas disformes. Eu andava pálido pelas ruas e sentia o vento cortando a minha cara. Eu andava úmido pelas chuvas incessantes e sentava no fim de tarde mais uma vez no bar do Bolota enquanto despejava mais algumas moedinhas na mão suada e fedorenta daquele gordo bonachão e apático. Aquele outro mundo, dos cordõezinhos de prata, das cêramicas lustrosas, dos sabonetinhos dentro de cuecas cheirosinhas e enroladas não era meu. Agora eu vivia de acordo com minha alma. Meu rumo era esse e nada mais me faria voltar. O caminho de todos é o da morte. Por quê então se preocupar? Eu dava risadas sonoras e chacoalhava de tanto rir. Eu me sentia livre.

Escrito por Edu Beckandroll às 21h13
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