Enquanto o Mundo Explode


Sábado , 11 de Junho de 2005


Meu amigo Guaraci Montenegro é um excepcional escritor independente. E devido a minha grande insistência finalmente cedeu e resolveu publicar alguns de seus escritos na internet. Ele é um escritor à moda antiga, escreve de próprio punho, e de certa forma ainda não descobriu a maravilhosa ferramenta que é a internet quando se trata de divulgar aquele trabalho que se faz na calada da noite, no sossego do lar, aquelas reflexões tão importantes que poderiam passar despercebidas caso não existisse a rede. Não canso de repetir: isso aqui é a democratização total da literatura, da música, das artes enfim. Qualquer um pode jogar na rede sua idéias, sem intermediários, sem censores. A arte no estado bruto e puro.

Convido vocês para a leitura de dois textos do meu grande camarada Guaraci, amigo de tantos anos. Um publicado aqui nesse blog hoje, "A Turma do Chama" é um clássico do autor. Retrata de forma sublime o destino que podemos, cada um de nós, dar às nossas vidas. Um belo texto, sensível e esteticamente agradável.

O outro texto, "A Jóia da Noite", estará inaugurando o espaço do autor na web. Vocês poderão conferi-lo no endereço http://meninomoco.zip.net. Tenho certeza que desfrutarão de ótima leitura, através de uma inusitada noite em um cabaré porto-alegrense.

Guaraci Montenegro é natural de Porto Alegre e tem 32 anos.


"A Turma do Chama"

A "Turma do Chama" era uma sociedade informal de jovens poetas que se reuniam todos os sábados à noite em um boteco simpático e ligeiramente sujo, escondido nas entranhas do bairro Azenha. Chegavam por volta das 8 horas e ficavam até a paciência encher, declamando seus poemas uns para os outros; eram versos livres do pudor da ruindade, cheios de gírias e vocábulos semi-desconhecidos, verdadeiros jatos de emoção bruta, entremeados de discussões a respeito de tudo; política, música, economia, sexo, ódio, amor, amizade, os grandes mistérios da vida e os rumos da humanidade. Penetrávamos todas as questões, num misto de superficialidade e ardor juvenil. Estávamos todos na casa dos vinte anos, quando tudo ainda cheira a novidade. Desafiávamos Deus a explicar a bela m.... que o mundo se encontrava, nos levantávamos contra o governo, as multinacionais, a mídia careta, e não ligávamos para a ausência de contrapropostas. Como um de nós tinha fundado o "nem-aísmo",  segundo o qual, já que vamos para o cemitério e ainda não foi comprovado o além-túmulo, tudo era válido em sua falta de sentido sobretudo se reunir em um boteco para brincar de pensadores e rebeldes malditos, em meio à fumaça de cigarro e muito álcool.

Os habituais frequentadores do boteco, gente humilde, numa faixa etária superior à nossa, com preocupações bem distintas de jovens universitários, que nos viam como um simpático corpo estranho. Às vezes prestavam atenção nas m.... que a gente falava, com um misto de curiosidade e admiração.

Havia um homem que sempre chegava um pouco depois da gente, quando era possível, sentava perto de nós. Tinha um rosto muito avermelhado e pequenos olhos claros que brilhavam timidamente enquanto procurava nos escutar. Então começava a beber solitário uma dose atrás da outra, o efeito da bebida abrindo um sorriso de dentes amarelados, um sorriso trôpego, desengonçado, envergonhado de si mesmo. Depois levantava e ia embora.

De acordo com nosso espírito zombeteiro, passamos a questionar a masculinidade do coroa, especulando sobre qual de nós era o seu objeto de desejo. Mas, uma noite, enquanto procurávamos achar o caminho seguro entre Deus e a ciência, o homem se dirigiu até nós e pediu um minuto de atenção. Parecia uma criança dirigindo-se a um grupo de adultos. Sentimos que ele fizera um esforço enorme para tomar aquela atitude, e concedemos o tal minuto, mas tio, seja breve, que o cheiro de pinga está de lascar:

- Guris, faz tempo que eu venho cuidando vocês, com todo o respeito, né?  Com todo o respeito cuidando, cuidando. Eu... sou um perdedor, um saco de mijo e cocô. Mijo choco. Eu sou aquele que caiu num buraco sem fundo e não quer companhia. Então escutem a voz que vem do fundo do buraco. É rápido.

O homem já tinha capturado completamente a nossa atenção. Éramos sua pequena platéia , estávamos em suas mãos. Ele falou:

- Fujam de um casamento sem amor e um trabalho sem prazer. A maioria do pessoal até aguenta, mas não a gente. Senão...

E fez um gesto com ambas as mãos para si. E, se desse para espremer aquele sorriso sem graça, daria para encher um copo de lágrimas.

E foi embora devagarinho, deixando-nos com saudade do bafo de pinga.

Suas palavras nos atingiram como um tapa. Buscando informações a respeito do homem com o dono do bar ficamos sabendo que ele morava sozinho em uma bela casa de dois pisos ali perto, a maior das redondezas, e frequentava o bar há muito tempo. Era um homem muito reservado, porém uma vez deixou escapar qualquer coisa sobre ter pintado quadros na juventude, tipo "Mona Lisa", sabem?, e sobre uma mulher mais jovem que não valia nada, mas era linda de morrer.

A "Turma do Chama" aguardou pela volta do Tio, mas soubemos que ele escolhera outro dia e horário para beber. De certa forma, ele tinha virado uma figura mítica para nós, inspirando-nos longos debates sobre a felicidade, sua busca, natureza, peso, cor, altura e pelo menos dois poemas: "A cadela mais linda do mundo" e  "A voz no fundo do buraco", este último de minha autoria. Todos concordaram que "A voz no fundo do buraco" tinha algum valor literário. Então, após um árduo processo de lapidação, supervisionado por um competente professor de literatura, consegui publicá-lo em uma antologia de poetas amadores.

E, porque imaginamos que aquele seria o destino de Arturo Bandini, de John Fante, frustrado, bebum e com o pensamento voltado para Camila Lopez, resolvemos chamar nosso amigo de Tio Arturo, membro honorário da "Turma do Chama".

Nos dias de hoje, em que a "Turma do Chama" é só uma lembrança que arde gostosa e possivelmente o Tio Arturo já encontrou o descanso, eu mantenho uma coluna política de orientação esquerdista em um jornal de segunda linha e estou casado com uma baixinha branquela de pernas torneadas e temperamento explosivo. Ganho o bastante para comprar uns livros e Cd´s sem ter que abater da comida, e não ligo para a baixinha branquela que às vezes me chama de perdedor porque só troco de carro a cada cinco anos.

Sei que logo depois vai tentar se redimir dessas bobagens com um baby-doll preto e o meu prato de comida predileto. Sou feliz e não frequento botecos ligeiramente sujos. E tudo porque a voz no fundo do buraco até agora ressoa em meus ouvidos.

G


Leia mais em: http://meninomoco.zip.net


 

Escrito por Edu Beckandroll às 01h13
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Domingo , 05 de Junho de 2005


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Escrito por Edu Beckandroll às 12h56
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