MEDO
Não era por nada não, mas resolvi verificar mais uma vez se a porta realmente estava trancada.
Viu? Não estava! Se houvesse ido deitar-me passaria uma noite inteira, uma noite inteirinha, com a porta aberta! Eu estaria completamente à mercê de qualquer maldade que por ventura quisessem perpetrar-me naquela noite.
Fiquei ainda alguns segundos olhando friamente para a porta como se ela fosse a única responsável em ter ficado destrancada. Automaticamente enfiei-lhe a chave através da fechadura e rapidamente girei duas vezes para à esquerda a tosca e desgastada chave que tinha um péssimo aspecto acinzentado.
Enfim eu poderia deitar-me tranquilamente.
Ah! Antes esse pequeno acontecimento doméstico fosse o que de pior estava para acontecer-me. Muitas outras esquisitices incômodas estavam por vir.
Logo que deitei a cabeça em meu travesseiro espesso e cheirando a mofo percebi com meu nariz minúsculo, todavia muito sensível, um leve odor de cigarro. Por Deus, como odiei aquilo! Teria de levantar-me correndo pois alguém havia esquecido um cigarro aceso em algum cinzeiro da casa.
Logo localizei o pequeno foco de perigo para minha integridade física. A quase imperceptível luminosidade alaranjada de uma brasa de cigarro o fez surgir branco, curto e cilíndrico em meu campo de visão, como se fosse o mais potente dos holofotes em uma noite escura de inverno.
Rapidamente eu o peguei e corri até o banheiro mais próximo para apagá-lo sob a torneira. Aquela simples e fumegante guimba de cigarro poderia causar um vultoso incêndio. Deus do céu! Queimar até morrer, morte arrepiante ao mínimo vislumbrar de sua possibilidade.
Aliviado, pude retornar ao meu leito, no entanto ainda estava por começar o pior.
Logo adormeci, pois esses dois últimos sobressaltos fadigaram-me de tal maneira que dormi profundamente, porém de forma pouco tranquila.
Após dormir é que os verdadeiros suplícios começaram. Sonhos confusos e pavorosos permearam durante várias horas meu sono.
Sonhei que um homem havia entrado na casa e ficava olhando-me através da porta entreaberta. Seus olhos destacavam-se na escuridão e na mão ele portava uma reluzente faca; ele iria atingir-me assim que eu adormecesse.
Sonhei que estando eu a mergulhar em uma lagoa, de repente avisto um cadáver putrefato com um doce sorriso nos lábios, flutuando vagarosamente sobre as águas em minha direção. E, Deus!, ele tinha a expressão verdadeiramente parecida com meu rosto! Ah! Quanto sofrimento boiar assim, sorrindo eternamente em um lago gelado. Como poderia ele sorrir após morrer afogado?
Sonhei que a humanidade toda voltara-se contra mim elegendo-me o anticristo. Pretendia-se eliminar-me fisicamente da maneira mais dolorosa jamais imaginada.
E tantos mais outros pesadelos atordoantes que não cabe relatar, pois não teria força o suficiente para reviver aquelas imagens e sensações.
Ao final de aproximadamente três horas de sono e sonhos perturbadores despertei entre lençóis embolados e empapados em suor.
Então um ruído vindo de alguma peça mais afastada de meu quarto intrigou-me e fez minha espinha vibrar.
Era o ruído de uma máquina.
Calcei instintivamente os chinelos, sempre temendo pisar em alguma aranha venenosa, que com seu veneno paralisante faria-me agonizar durante horas sofrendo as mais lancinantes dores que ser humano algum poderia suportar.
Espichei o ouvido tentando localizar a origem daquele som fantasmagórico e terrificante que riscava a madrugada, estremecia meu cérebro e deixava-me a ponto de defecar torrencialmente nas calças.
Corri em direção à garagem. Sim! O som vinha de lá! Ah, ah, ah! Nunca poderia ninguém fazer-me mal. Eu era muito mais tenaz que eles. Eu colocava sempre –sempre! – todos aqueles que eventualmente planejassem minha aniquilação física, moral, existencial, espiritual, filosófica dentro do meu pequeno bolso! Eu sempre fui melhor que eles.
Adentrei correndo pela porta interna que levava à garagem e lá, para minha desgraçada surpresa encontrei dois homens jovens tentando roubar meu carro. Eles aperceberam-se de minha presença logo entrei no local, então mais rápido que eles apoderei-me de um pesado bastão metálico que se encontrava, justamente para esse tipo de situação, há anos escondido atrás da máquina de lavar roupas.
Gritei com os rapazes ordenando que saíssem do carro, que teimava em não pegar. Eles, com os olhos esbugalhados de medo, não esboçavam nenhuma reação, estavam paralisados.
Não sei como, mas um terceiro integrante do bando de jovens meliantes surgiu às minhas costas e rendeu-me com uma arma.
Eles não sabiam o que fazer comigo; eu vira o rosto de todos os três e no mínimo dois deles eram-me muito conhecidos. Eram garotos desajustados da vizinhança.
Colocaram-se a conferenciar e decidiram por minha morte.
Deixar-me vivo seria a condenação deles.
Entretanto não lhes bastava simplesmente ceifar minha vida.
Era noite de Sábado. Alguma diversão se fazia necessária. Minha repentina aparição fora providencial.
Naquela mesma garagem encontrava-se um gigantesco moedor de carne, remanescente de um antigo negócio de meu pai.
Os rapazinhos, muito excitados e com os olhos faiscando, penduraram-me pelos braços sob o moedor e o ligaram entre gargalhadas e bazófias. A simples visão das engrenagens se movimentando e desejando sangue e tripas, fez-me esquecer de tudo o mais. Minha consciência a respeito do mundo e de quem eu era não existia mais. O tempo não existia mais. Somente a dor existia. E, aparentemente, a cada milímetro que a corda escorregava, tornava-se sólida como rocha.
A corda era descida muito devagar pelos meninos. Meu corpo pendia sob a máquina assassina.
Meu corpo seria dilacerado por aquele túnel dentado.
Naquela noite, não sei dizer se morri.