Enquanto o Mundo Explode


Quinta-feira , 31 de Março de 2005


EDITORIAL

 

Monopólio, uma aberração

 

Simplesmente primoroso o editorial da Folha Guaibense da edição da semana passada, tratando justamente sobre os eternos problemas decorrentes do transporte coletivo entre Guaíba e a Capital.

 

Não é mais possível que se tente tapar o sol com a peneira da forma como vem sendo feito até agora, insistindo-se no argumento de que a fiscalização da Metroplan não detectou nenhum problema referente à superlotação dos ônibus da Expresso Rio Guaíba e carência de horários, sobretudo na linha Colina, quando isto não é verdade.

 

Relatos diários de usuários depõem contra os serviços da  Expresso Rio Guaíba, pelos quais, no caso da linha Colina, que atualmente atende vários grandes bairros da cidade, são pagos R$ 3,00 para se viajar em pé, acotoveladamente com os outros desafortunados usuários. Sobre estas péssimas condições que os trabalhadores que se deslocam nas primeiras horas da manhã para Porto Alegre enfrentam, posso afirmar perante qualquer um: têm algo de desumano, são desrespeitosas.

 

No retorno, outro suplício.

 

E, como se não bastasse tamanho desrespeito ao consumidor (sim! Porque o usuário de transporte coletivo é um consumidor e tem direitos!) a Expresso Rio Guaíba parece estar atritando-se com a população, em um flagrante e mesquinho revide em relação aos protestos que culminaram em depredação de vários veículos da empresa, no ano passado. No entanto, é bom salientar que estes atos extremos foram praticados por uma parcela diminuta, ínfima dos usuários, que não pode pagar por alguns mais exaltados.

 

Urge que a concorrência chegue em nosso município e coloque de uma vez por todas um ponto final nesta história, tragicamente recheada de incompetência e descaso, não somente com os usuários  mas também com as próprias leis do mercado. Ora, uma empresa que se propõe a executar um serviço não pode deixar arrastar-se por picuinhas e pendengas com aqueles que a sustentam e a tornam possível: os clientes.

 

Que encerre-se imediatamente os mandos e desmandos da Expresso Rio Guaíba, originados por essa aberração chamada monopólio.

 

Os benfazejos ventos da livre concorrência deverão soprar em Guaíba, para o bem de milhares de pessoas que deslocam-se à Capital diariamente, seja a trabalho, lazer ou estudo. Os guaibenses não podem continuar reféns de uma empresa. Isto é inaceitável e já durou tempo demais.

 

Entretanto, não podemos nos deixar iludir pela promessa das barcas, que tão conveniente ocupa mais uma vez as discussões no município. Mesmo que essa nova alternativa, prometida há tempos, seja implantada em nossa cidade, devemos nos lembrar dos numerosos bairros que não margeiam o Guaíba e não serão beneficiados com o suposto advento das barcas.

 

A cidade aguarda ansiosamente boas novas em relação ao transporte entre Guaíba e Porto Alegre. Já não é sem tempo de outra empresa ter o direito de explorar este serviço público e de suma importância para nossa cidade.

Escrito por Béquenrou, blogueiro guaibense às 11h58
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Terça-feira , 29 de Março de 2005


E a peregrinação dos idiotas através deste blog continua a mil. Eles chegam pelos buscadores aos borbotões. Vejam alguns resultados de buscas que indicaram este blog.

Esse é o nosso mundo... enquanto explode.


Lis! Muito obrigado pela ajuda com a imagem. Essa porra de PC não tá convertendo pra jpg, é phooooooooooooooda! Visitem o blog da minha amiga: http://ehpakeima.blog.uol.com.br

Escrito por Edu Beckandroll às 11h31
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Sábado , 19 de Março de 2005


Mais uma da série "Os CONTOSCOS (ou TOSCONTOS) de Edu Beckandroll"


O INIMIGO NATURAL


Quando eu tinha apenas dez anos de idade,  em uma tarde de inverno em que uma fina chuva caía, eu tive uma revelação. Uma grande e importantíssima revelação.


É bom salientar que a chuva que caía apesar de muito esparsa prenunciava dias e mais dias de tempo cinza e melancólico. Eram daquelas chuvas monótonas e desconcertantes que despertavam desejos estranhíssimos em algumas poucas pessoas. E estas pareciam selecionadas rigorosamente, devido ao talento nato, de ver muito além do que os olhos podem ver, que revelavam nos momentos de melancolia profunda.


Era gozado ouvir o som da chuva batendo na calçada enquanto as outras crianças brincavam entretidas, completamente distantes da perversa realidade, mergulhadas  em um delírio onírico infantil.


Mas, voltemos ao tema gerador deste relato.


A chuva incomodava sobremaneira aqueles como eu que possuíam a capacidade natural de se irritar até mesmo com as mais frugais demonstrações de superioridade da natureza em relação ao homem. Sentia-me por diversas vezes como se estivesse absolutamente a mercê das vontades da senhora Natureza, como se esta pudesse controlar a mim e aos meus semelhantes como se fôssemos meros marionetes do mais vulgar dos teatros.


Essa sensação despertava em mim um ódio tão forte, um descontetamento tão arraigado em minha alma com as inexoráveis leis da física e da natureza que não me restava outra alternativa a não ser amaldiçoar toda e qualquer forma de vida, qualquer fenômeno natural, chegando ao ponto máximo da sobriedade (ou loucura?) de desejar que todos os seres fossem extintos, que o ambiente se transformasse no mais asséptico dos claustros e que eu, devido a minha inegável clarividência em relação a tudo isso, fosse alçado a condição de líder natural de um novo mundo e de uma nova humanidade.


Eu olhava aquela chuva maldita e me entregava totalmente aos pensamentos revolucionários sobre uma nova ordem natural e social que poderia conduzir a humanidade a conquistas nunca dantes sonhadas. A natureza era um empecilho para o homem e atravancava seu progresso, era dever de minha geração construir as bases, erguer os alicerces, da maneira mais sólida possível, que serviriam como lastro para o nascimento, desenvolvimento e plenitude de uma nova humanidade.


Enquanto aquela maldita chuva teimasse em continuar caindo nada eu poderia fazer. E isso só me deixava mais convicto de algo que deveria ser feito, sob a aterradora pena da humanidade viver perpetuamente sob a terrível sombra do desconhecido que, por critérios nem um pouco lógicos, absolutamente desconexos, sem relação alguma entre causa e efeito, condenava todos a determinar seus passos e ações de acordo com seus humores nem sempre favoráveis. O Homem é maior que a Natureza e deve, imediatamente, dominá-la de uma vez por todas. Eram esses os pensamentos que acometiam minha alma naquelas intermináveis tardes chuvosas e entediantes.


Ah, meus amigos! Como que quisera possuir o Dom de selecionar as espécies que mereceriam continuar existindo sobre a face da Terra! Eu poderia, muito mais sabiamente que Deus, encerrar com os tormentosos fenômenos naturais, como terremotos, erupções inúteis de vulcões assassinos e imprestáveis que colocam sempre nossa existência em xeque, como um intimidatório dedo acusador  e inquisidor, eternamente a nos lembrar nossa frágil situação neste universo hostil e inquestionável.


O ódio em meu coração a essas alturas era de tal forma intenso que embriagava toda a minha alma numa pavorosa mescla de bílis e ácido, eu me perdia nos devaneios e chegava a ficar febril, tamanha era a reação que meu corpo demonstrava ao constatar a prisão na qual se encontrava.
 


 E foi naquela tarde maçante e interminável que essa revelação foi-me feita, a partir somente, e tão-somente, de minhas observações pela janela da velha casa que eu habitava com minha família. Durante um tempo fiquei pasmado, num estado letárgico que lembrava o torpor proporcionado por alguma espécie de tóxico que deixava-me inerte, porém, extremamente sensível a tudo o que acontecia ao redor. Ouvia os passos das formigas, escutava as folhas das árvores chocando-se umas contra as outras e recebendo desprotegidas as minúsculas gotas da chuva. Eu sentia o perfume das rosas enchendo meu quarto, penetrando em cada espaço que houvesse. Longe, muito longe alguns pássaros incomodavam, com seus ruídos cretinos e inúteis.


Elegi naquela tarde comum o objetivo de minha vida. Eu viveria a partir daquele momento somente e obcecadamente para aniquilar o inimigo natural. Sim! O inimigo natural, que limitava, assassinava, coordenava, determinava cada passo de cada ser vivente sobre este planeta maldito. A humanidade, devido a minha incrível clarividência tornaria-se enfim livre. Libertaria-se completamente das opressões naturais, impostas por uma natureza impiedosa e cheia de defeitos. O Homem é racional, é matemático, é previsível... Não poderia continuar sob o jugo totalitário de forças imbecis que não acrescentam nada à sua existência e desenvolvimento. Pelo contrário: lhes tiram um pouco da grandeza de ser Homem. Afinal, nos bastam os minérios! E algumas formas de vida, maravilhosamente controladas e observadas, que serviriam para alimentação. O homem e os minérios! A parceria mais bem sucedida e perfeita de todo o universo.  E hoje, tantos anos depois daquela tarde redentora, escrevo estas linhas. É claro que meus objetivos ainda não foram totalmente alcançados, isto nem seria possível em tão curta passagem pela Terra. Mas as bases foram construídas. Outros seguirão meu trabalho, da mesma forma que outros tantos já seguem. No final, o Homem, somente o Homem, existirá.

Escrito por Edu Beckandroll às 14h16
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Quinta-feira , 17 de Março de 2005


Marmita, o gato

MARMITA estava sentado no cordão da calçada, bebericando uma cervejinha. Olhava para o vazio da rua e sentia um pouco de frio. No entanto, relutava em se recolher. Lá dentro, a MULHER GORDA CHATA E FEDORENTA, o esperava sob os cobertores, decorando o quarto com seus peidos absolutamente desumanos. MARMITA não entendia porque, mas naquela noite algo o prendia na rua e o fazia ficar como um bobo, esperando, esperando por algo que não sabia o que era. Lá pelas tantas vislumbrou uma pequena formação de cores bem a sua frente. Assustou-se. Era algo sobrenatural. Petrificado pelo pavor não conseguia desgrudar os olhos daquela linda constelação de pequenas estrelas que bailavam quase por cima de seus bigodes compridos. E sendo assim, sentia mais medo. Contudo, as pequenas estrelas executando sua dança feérica e sutil, entraram em formação e a partir desta formação surgia claramente a silhueta de uma linda mulher. Perfeita nas proporções e nos contornos! Mas, sublime... Encantadora. Era sua PHODA MADRINHA!

MARMITA (travado de pavor) Vai de retro satanás!
PHODA MADRINHA (angelical) Calma, MARMITA. Calma... eu vim para lhe ajudar, eu sei que tu não estás feliz com essa nova vida de proletário.
MARMITA (incrédulo) Mas quem é tu, afinal?
PHODA MADRINHA (eufórica) Sou sua PHODA MADRINHA!
MARMITA (espantado) Nossa, eu nem sabia que tinha uma. Ainda por cima gostosa desse jeito!
PHODA MADRINHA (lisonjeada) hahahaha, marmitinha, marmitinha... eu sei que tu andas a perigo por isso vim te ajudar...
MARMITA (excitado) Ueba! Eu não aguento mais comer a MULHER GORDA CHATA E FEDORENTA! Não aguento mais!!! Acho que foi inspirado nela que o Bukowski escreveu aquela nota sobre a mulher que trepava e peidava, trepava e peidava.
PHODA MADRINHA (piedosa) Marmitinha, tu és tão gostosinho, tão piçudinho... Eu te quero no meu leito encantado.
MARMITA (tirando a calça) Mas é pra já, madame! Vamos nessa que o atraso é grande!

E assim, depois de muito tempo, Marmita teve uma noite de amor com uma mulher realmente gostosa. E um lindo sorriso voltou aos seus pequeninos lábios, pelo menos por uma semana.

Noutro dia tem mais

Escrito por Edu Beckandroll às 12h46
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Quarta-feira , 16 de Março de 2005


Desculpem-me, mas é irresistível. Tenho que publicar outra conversa doida no MSN. Daquelas que parecem só acontecer comigo. Ontem foi a vez de um maluco que me encontrou através do Google, procurando por “receitas de bombas”, vejam só.

Mais uma da série...

CONVERSAS MUITO ESTRANHAS NO MSN

Um tal de lucassantana446@hotmail.com me adicionou, fui ver qual era:

Escrito por Edu Beckandroll às 11h42
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Beckandroll diz:

manda bala!

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

ai veio enteri no sei blog i vi...c pod m ensina a faz  umas bombas caseiras?

Beckandroll diz:

pra que vc quer usá-las?  qual a finalidade?

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

mw sonho eh ser terrorista...inatum qro v como faz

m ensina..

Beckandroll diz:

qual a causa q vc vai defender com seus atentados?

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

o bush eu odeio ele vo explodir a casa branaca..tak gas mostarda

Beckandroll diz:

 claro, claro...  como pretende executar o atentado?

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

nem vo ligar avisanu vo invadi tacanu gas mostarda

Beckandroll diz:

pq achas q eu sei fazer bombas?

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

vc flo i eu vi no sw blog qnd eu procurei no google eu vi c sab m ensina?

Beckandroll diz:

sim, ensino... mas antes me diga como foi a pesquisa q vc fez. quais os termos q digitou no google

Escrito por Edu Beckandroll às 11h39
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...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

receitas de bombas... vai m fla por favor...

Beckandroll diz:

bom, primeiro passo: faça uma faculdade de física, depois me procure, ok?

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

a mancada..... m ensina soh dinamite vc sag faze ....vai m passa..

Beckandroll diz:

não sei cara! sou apenas um blogueiro latino-americano, sem dinheiro no bolso... e pacifista

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

gosta do bush?

Beckandroll diz:

claro q não, rapá!

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

entaum...eu odeio ele ..... m fla como faz dinamite

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

so obckdo por bombas m fla....

Beckandroll diz:

com a tua idade eu era obcecado por bundas, não por bombas

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

eu adoro sexo mas qro sab d bombas

...A vida eh como a droga, a gente usa dpois morre..... diz:

mano tu ta blefanu naum sab faze bomba coisa nenhuma

Beckandroll diz:

essa conversa será publicada no blog Enquanto o Mundo Explode, obrigado

 

Escrito por Edu Beckandroll às 11h39
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Terça-feira , 15 de Março de 2005


Vida de blogueiro maldito não é fácil minha gente.

Entro no MSN e...

danic22@hotmail.com diz:

seu imbecil

danic22@hotmail.com diz:

tosco

danic22@hotmail.com diz:

ogro

danic22@hotmail.com diz:

verme

danic22@hotmail.com diz:

animal

danic22@hotmail.com diz:

doente

danic22@hotmail.com diz:

coisa horrorosa

danic22@hotmail.com diz:

parece um bossal

danic22@hotmail.com diz:

credo

danic22@hotmail.com diz:

tenho nojo de vc

danic22@hotmail.com diz:

danic22@hotmail.com diz:

nao tem nada a ver

danic22@hotmail.com diz:

to nauseada

danic22@hotmail.com diz:

sabe as vezes me pego pensando como pode uma pessoa tao tosca anormal estar entre nos

os TOSCONTOS (ou CONTOSCOS) de edu beckandroll - http://beckandroll.zip.net y http://enquantoomundoexplode.zip.net (wiwy) diz:

mais, mais!

"dani" "Nobody loves you, when you are in out and down" diz:

chega ja to com diarreia de olhar pra essa foto


 Marca-Texto: "Quando a corja fala de cultura, Gláuber quer quebrar a tampa do caixão" - Nei Lisboa, na maravilhosa "Carecas da Jamaica"

Escrito por Edu Beckandroll às 11h42
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Segunda-feira , 14 de Março de 2005


EDITORIAL

O PODER DO EMAIL

A sociedade brasileira parece finalmente despertar para os seus
direitos e tomar consciência de seu poder frente aos parlamentares
eleitos justamente para representá-la. A enxurrada de emails enviados
ao Congresso Nacional protestando contra o descabido e ultrajante
aumento de salários dos deputados e senadores proposto pelo novo
presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, demonstrou como é
importante a participação ativa do cidadão quando os interesses da
Nação estão em jogo. No total mais de 10 mil mensagens foram enviadas
de todos os cantos do país, por pessoas que não concordavam com o
reajuste de quase 70% dos vencimentos dos parlamentares, entupindo as
caixas postais de muitos deles. Percebendo a forte reação popular
contra a medida os parlamentares, temerosos de fragorosas derrotas no
próximo pleito, voltaram atrás e abriram mão do aumento. A
participação do cidadão nos rumos políticos do país demonstrou-se
importantíssima neste episódio e cada vez mais a população deve
utilizar sobretudo dessa poderosa e eficaz ferramenta tecnológica que
é o email para pressionar seus representantes quando julgar que os
interesses da sociedade estão sendo contrariados.

Escrito por Edu Beckandroll às 09h00
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Domingo , 06 de Março de 2005


mais uma da série "os CONTOSCOS de beckandroll"

MEDO

Não era por nada não, mas resolvi verificar mais uma vez se a porta realmente estava trancada.

Viu? Não estava! Se houvesse ido deitar-me passaria uma noite inteira, uma noite inteirinha, com a porta aberta! Eu estaria completamente à mercê de qualquer maldade que por ventura quisessem perpetrar-me naquela noite.

Fiquei ainda alguns segundos olhando friamente para a porta como se ela fosse a única responsável em ter ficado destrancada. Automaticamente enfiei-lhe a chave através da fechadura e rapidamente girei duas vezes para à esquerda a tosca e desgastada chave que tinha um péssimo aspecto acinzentado.

Enfim eu poderia deitar-me tranquilamente.

Ah! Antes esse pequeno acontecimento doméstico fosse o que de pior estava para acontecer-me. Muitas outras esquisitices incômodas estavam por vir.

Logo que deitei a cabeça em meu travesseiro espesso e cheirando a mofo percebi com meu nariz minúsculo, todavia muito sensível, um leve odor de cigarro. Por Deus, como odiei aquilo! Teria de levantar-me correndo pois alguém havia esquecido um cigarro aceso em algum cinzeiro da casa.

Logo localizei o pequeno foco de perigo para minha integridade física. A quase imperceptível luminosidade alaranjada de uma brasa de cigarro o fez surgir branco, curto e cilíndrico em meu campo de visão, como se fosse o mais potente dos holofotes em uma noite escura de inverno.

Rapidamente eu o peguei e corri até o banheiro mais próximo para apagá-lo sob a torneira. Aquela simples e fumegante guimba de cigarro poderia causar um vultoso incêndio. Deus do céu! Queimar até morrer, morte arrepiante ao mínimo vislumbrar de sua possibilidade.

Aliviado, pude retornar ao meu leito, no entanto ainda estava por começar o pior.

Logo adormeci, pois esses dois últimos sobressaltos fadigaram-me de tal maneira que dormi profundamente, porém de forma pouco tranquila.

Após dormir é que os verdadeiros suplícios começaram. Sonhos confusos e pavorosos permearam durante várias horas meu sono.

Sonhei que um homem havia entrado na casa e ficava olhando-me através da porta entreaberta. Seus olhos destacavam-se na escuridão e na mão ele portava uma reluzente faca; ele iria atingir-me assim que eu adormecesse.

Sonhei que estando eu a mergulhar em uma lagoa, de repente avisto um cadáver putrefato com um doce sorriso nos lábios, flutuando vagarosamente sobre as águas em minha direção. E, Deus!, ele tinha a expressão verdadeiramente parecida com meu rosto! Ah! Quanto sofrimento boiar assim, sorrindo eternamente em um lago gelado. Como poderia ele sorrir após morrer afogado?

Sonhei que a humanidade toda voltara-se contra mim elegendo-me o anticristo. Pretendia-se eliminar-me fisicamente da maneira mais dolorosa jamais imaginada.

E tantos mais outros pesadelos atordoantes que não cabe relatar, pois não teria força o suficiente para reviver aquelas imagens e sensações.

Ao final de aproximadamente três horas de sono e sonhos perturbadores despertei entre lençóis embolados e empapados em suor.

Então um ruído vindo de alguma peça mais afastada de meu quarto intrigou-me e fez minha espinha vibrar.  

Era o ruído de uma máquina.

Calcei instintivamente os chinelos, sempre temendo pisar em alguma aranha venenosa, que com seu veneno paralisante faria-me agonizar durante horas sofrendo as mais lancinantes dores que ser humano algum poderia suportar.

Espichei o ouvido tentando localizar a origem daquele som fantasmagórico e terrificante que riscava a madrugada, estremecia meu cérebro e deixava-me a ponto de defecar torrencialmente nas calças.

Corri em direção à garagem. Sim! O som vinha de lá! Ah, ah, ah! Nunca poderia ninguém fazer-me mal. Eu era muito mais tenaz que eles. Eu colocava sempre –sempre! – todos aqueles que eventualmente planejassem minha aniquilação física, moral, existencial, espiritual, filosófica dentro do meu pequeno bolso! Eu sempre fui melhor que eles.

Adentrei correndo pela porta interna que levava à garagem e lá, para minha desgraçada surpresa encontrei dois homens jovens tentando roubar meu carro. Eles aperceberam-se de minha presença logo entrei no local, então mais rápido que eles apoderei-me de um pesado bastão metálico que se encontrava, justamente para esse tipo de situação, há anos escondido atrás da máquina de lavar roupas.

Gritei com os rapazes ordenando que saíssem do carro, que teimava em não pegar. Eles, com os olhos esbugalhados de medo, não esboçavam nenhuma reação, estavam paralisados.

Não sei como, mas um terceiro integrante do bando de jovens meliantes surgiu às minhas costas e rendeu-me com uma arma.

Eles não sabiam o que fazer comigo; eu vira o rosto de todos os três e no mínimo dois deles eram-me muito conhecidos. Eram garotos desajustados da vizinhança.

Colocaram-se a conferenciar e decidiram por minha morte.

Deixar-me vivo seria a condenação deles.

Entretanto não lhes bastava simplesmente ceifar minha vida.

Era noite de Sábado. Alguma diversão se fazia necessária. Minha repentina aparição fora providencial.

Naquela mesma garagem encontrava-se um gigantesco moedor de carne, remanescente de um antigo negócio de meu pai.

Os rapazinhos, muito excitados e com os olhos faiscando, penduraram-me pelos braços sob o moedor e o ligaram entre gargalhadas e bazófias. A simples visão das engrenagens se movimentando e desejando sangue e tripas, fez-me esquecer de tudo o mais. Minha consciência a respeito do mundo e de quem eu era não existia mais. O tempo não existia mais. Somente a dor existia. E, aparentemente, a cada milímetro que a corda escorregava, tornava-se sólida como rocha.

A corda era descida muito devagar pelos meninos. Meu corpo pendia sob a máquina assassina.

Meu corpo seria dilacerado por aquele túnel dentado.

Naquela noite, não sei dizer se morri.

Escrito por el maldito beckandroll às 21h20
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Quarta-feira , 02 de Março de 2005


Louco

 

Assim como aquele juiz do conto do Maupassant, outro juiz, agora no
nordeste do Brasil matou um homem. Um simples trabalhador, assassinado
pelas costas, sem a menor chance de defesa. Quantas vezes ouço aqueles
terríveis comentários quando do assassinato de um figurão: "pobre
homem, rico, de sucesso, agora morto". Será que a lei funcionará para
um juiz que matou um humilde trabalhador?

Escrito por beckandroll, um homem do povo às 14h28
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